FRIDA KAHLO

“O Abraço Amoroso do Universo, a Terra (México), Diego, Eu, e o Señor Xólotl, 1949.”"Eu vou mal e irei pior ainda mas aprendo pouco a pouco a ser só, e isso já é alguma coisa, uma vantagem, um pequeno triunfo.”

Frida Kahlo
(6 de Julho de 1907 – 13 de Julho de 1954) pintora mexicana.

~ por ammedeiros em Junho 23, 2006.

4 Respostas to “FRIDA KAHLO”

  1. Ei!!!
    Adorei esta exposição no CCB!!!
    Este quadro é um dos favoritos, eu digo que está cheio de significado, basta olhar para cada um dos pormenosres e depois para o todo.
    Frida foi uma grande mulher, com uma capacidade de amar e uma força de viver inigualáveis.
    Realmente ela esteve mal, mas quem iria à sua própria exposição levada numa cama??? Que coragem, não?
    P.M.

  2. Vou falar sobre esta mulher, que como ela houve e haverá poucas, por ter sido tão excessiva em tudo, foi tão marcante, ela era visceral, exuberante, opulenta, colorida, determinada, apaixonada, tenaz e sangrenta…

    A obra de Frida não deverá ser dissociada do seu relacionamento com Diego Riviera, estão a vida e obra de Frida fundidas intimamente.
    Muito se relata acerca do sofrimento que Diego terá inflingido na artista, é facto que Diego Riviera era um mulherengo compulsivo dado o amor intenso, obcecado, que Frida nutria por ele, os seus quadros são disso reveladores. Não esqueceremos a seguinte frase de Frida, sob o impacto da separação: ”Acho que é melhor separarmo-nos e eu ir tocar minha música noutro lugar com todos os meus preconceitos burgueses de fidelidade”. É fácil extrair desta afirmação que, para a activista comunista, uma mulher que chocou a moralidade do seu tempo, a fidelidade, teoricamente pelo menos, era um procedimento anacrónico, descontextualizado do meio sócio-cultural em que vivia. De acordo com a sua biografia, em dada altura, os amantes fazem um pacto de lealdade, Diego diz a Frida que não lhe seria fiel e ela pede-lhe lealdade, sinceridade. Estes acertos são estruturantes e marcam um relacionamento, seja entre quem for, enquanto dure.
    Depois da decepção, Frida viaja, afasta-se de Diego, dedica-se com vigor ao partido comunista, tem vários casos amorosos. O seu célebre romance com Leon Trotski deu que falar e Nesta época, Frida conheceu André Breton, contacto importantíssimo para a sua carreira, e que a levou mais tarde a Paris, na sua primeira grande exposição em terras estrangeiras. Apesar do afastamento que ocorreu entre Frida e Diego, eles continuaram casados.
    Em Nova Iorque, Frida teve uma relação bastante apaixonada com o fotógrafo Nickolas Murray. Depois de terminado o romance, Nickolas escreve-lhe: “Eu sabia que só te tinha satisfeito enquanto substituto temporário e espero que encontres o teu refúgio intacto quando regressares. De nós os três só estavam lá vocês os dois. Sempre senti isso. As tuas lágrimas diziam-me quando ouvias a voz dele. O meu eu está eternamente grato pela felicidade que a tua metade me deu tão generosamente”.

    Frida continuava completamente apaixonada pelo “seu” Diego, Murray compreendeu isso. Mas como Frida não se tinha recuperado da traição que descumpria o trato de lealdade, e também por insistência de Diego, que achava que assim ela se dedicaria mais à sua obra e seria mais feliz, pedem o divórcio. Os papéis estão em ordem no final de 1939 e eles divorciados. Frida começa a beber muito, ao mesmo tempo em que mergulha de cabeça no trabalho. Nesta época surge o seu quadro “Auto Retrato com Cabelo Cortado”, ela já não queria sobreviver com o dinheiro de Diego e assim abdicou dos seus atributos femininos e dos seus trajes tehuna, vestindo um facto maior do que ela que poderia ter saído directamente do guarda-roupa de Diego. Ironicamente, pinta na parte de cima do quadro um verso de uma canção mexicana: “Olha, se te amei foi pelo teu cabelo; agora que está careca, já não te amo”. Frida retrata-se com uma tesoura nas mãos e os cabelos caídos no chão parecem estar vivos, enroscados na cadeira.
    A saúde de Frida piora consideravelmente depois da separação e, em dezembro de 1940, Diego volta a pedi-la em casamento, declarando: “A nossa separação estava a ter umefeito prejudicial sobre nós os dois”, e voltam a casar-se novamente, mas ela coloca duas exigências: que se sustentaria com o seu próprio trabalho e que não teriam mais relações sexuais, Diego parece ter ficado tão feliz com a concordância de Frida em reatar que aceitou tudo de bom grado. Ficam juntos até a morte de Frida em 1954, poucos meses antes das bodas de prata. 25 anos juntos.
    Foi uma relação crucial, literalmente. Amor, dúvidas, encanto, beleza, encruzilhadas.

    Sim, Diego fez sofrer Frida. O sofrimento de Frida Kahlo também deverá ter feito sofrer Diego Riviera. Se por um lado, Diego foi abandonado pela mãe e criado por diversas mulheres a partir de então – o que explicaria sua falta de confiança num amor único – Frida era atormentada por um grande vazio adicionado às suas inúmeras dificuldades físicas, às suas diversas cirurgias e abortos. Este foi um encontro de duas personalidades marcantes, extraordinárias. E um amor que apesar dos obstáculos, sobreviveu. Com Diego, Frida pôde compartilhar alegrias e dores, amores e decepções. Foram parceiros e amigos, tinham interesses e afinidades comuns.
    Ele não a amava, então? Relações intensas são condenáveis? Por quem? Por quê? O correcto é o que satisfaz as expectativas da sociedade, da família, os preceitos do “bem viver”?
    Presumivelmente sim. Mas as relações amorosas desafiam as regras do bom senso. Houve dedicação, coragem.

    E o Amor não serve à covardia.

    Diego ocupava os pensamentos de Frida, o que se vê em diversos auto-retratos, no “Retrato duplo”, presente de aniversario para o marido em 1944, em que imagem funde o rosto dos amantes, e no “Abraço Amoroso”, aqui ilustrado. Frida reconstrói um novo “além-mundo” para ela, a Lua, e Diego, o Sol, onde estariam unidos para sempre.

  3. Ana

    Kahlo faz a distinção dos mundos feminino e masculino, “a complementarity in which women are closer to nature but men are heroes of culture”. Verifica-se no quado,Frida representou Diego como o homem do saber, a cultura encarnada, sinalizando-o com o terceiro olho, que segundo a mitologia indígena, seria a sabedoria e a ela mesma cercada de natureza.
    As pinturas “O sol e a vida” (1947) e “O abraço amoroso entre o Universo”, são exemplo claro dessa linha de raciocínio.

    Numa declaração de Diego Rivera, nos anos 50, podemos explicitar as suas referências ao considerar Frida Kahlo como “a primeira mulher na história da arte a tratar, com absoluta e descomprometida honestidade, podíamos até dizer com uma crueldade indiferente, aqueles temas gerais e específicos que apenas dizem respeito às mulheres”, ou seja, para ele, haveria temas que só mulheres poderiam ou saberiam representar com mais fidelidade.
    Frida não participou do muralismo, abstendo-se de expor as suas obras nos prédios públicos, talvez não ambicionasse ou a sua condição de saúde não o permitisse. Ela fez o contraponto, resgatando os elementos religiosos e místicos do México, porém em dimensões espaciais bem menores.

    Segundo Joan Scot, os homens e as mulheres reais não cumprem sempre os termos das prescrições de sua sociedade ou da nossas categorias de análise… (talvez por isso, Ana, não me surpreende que gostes tanto de Frida Kahlo!!!…)

    Num contexto mexicano de transformações profundas e busca de uma cultura nacional, Frida Kahlo exerceu muito mais do que o seu destino lhe reservava, enquanto latino-americana, mulher e mestiça, ela incorporou para si o papel de construção e resgate de uma identidade nacional, originalmente indígena, representando um espelho do México e assim cumpriu outros papéis que a sociedade havia lhe reservado.
    E cumpriu-os desta forma…
    Gostei muito deste post, obrigada por colocares aqui a Kahlo.
    Bjs

  4. Ana

    Frida Kahlo foi uma mulher única.

    “A sua obra despertou a admiração dos grandes artistas da sua época. Foi reverenciada por Picasso, provocou a emoção de Kandinsky ao ponto de encher-lhe os olhos de lágrimas, aquando da contemplação de sua pintura exposta em Paris no ano de 1939, e entusiasmou André Breton que a viu como uma mulher do surrealismo.” (Herrera, 2001, p.212; Billeter,1993, pág.10)

    Frida é destacada pelo caráter sensual e feminino de seus trabalhos, sendo considerada como uma das primeiras artistas a romper com os padrões masculinos da pintura. Sobre ela, comentou Diego Rivera, em 1937:
    “[...] ela é a primeira mulher na história da arte que tomou com uma sinceridade absoluta e impiedosa, e pode-se dizer com uma impassível crueldade, os termos gerais e particulares que concernem exclusivamente às mulheres.” (Burrus, 1998, pág. 34).

    Eu diria, admito o risco de em nada ser original, ao defini-la na sua obra como Dor e Arte, assumindo sempre uma atitude de desafio perante a vida, de paixão pela verdade crua, da transformação da dor física em criação artística, da sua capacidade de sublimação… da sua necessidade de se redefinir identitariamente após as sucessivas alterações que a sua magem corporal sofre, talvez daí o seu excesso na produção de auto-retratos, das suas perdas e do seu luto…

    Gosto particularmente desta afirmação: “Um corpo é um conjunto, verdade? (…) Se lhe arrancam um elemento – mesmo ao preço de uma cirurgia estética – sempre lhe faltará algo. Uma parte do corpo transformada, amputada, é o começo de uma mutilação lenta. Depois tiram outras coisas, até que não fique mais nada. Isso é o que eu penso. E minha vida foi esse processo.”(Kahlo cit in Jamis 1987, pág. 256 ).
    Sorri, Ana, sorri! ;))))

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