O que é a “A Intenção Paradoxal”?…

O convite à reflexão é feito sob a serena, envolvente e inspiradora luz do luar, enigmática e cúmplice destes momentos… Para os que aceitaram deitar-se na rede e acompanhar-me neste “despretensioso devaneio”, chamar-lhe-emos assim se me permitirem, iniciaremos pela questão mais simples (diria o sábio que as questões mais simples são as mais importantes):
- O que é paradoxal?… (pergunto)
- Paradoxal é… contraditório (alguém arriscou uma primeira resposta)
- Mais do que isso, talvez algo que dasafia o senso comum e a lógica (outro contributo)
- Pode ser alguém que se sinta ou esteja em contradição com as suas ideias, sentimentos e comportamento (uma possível resposta, haverá respostas mais completas concerteza, mas esta é excelente para a nossa reflexão)
Eis o desafio que surge das vossas inestimáveis respostas!
Quais ou qual poderá ser a consequência de se estar neste estado paradoxal e o que sente alguém que tão pouca congruência encontra em si, no que pensa e no que faz, neste terrível conflito?
Desta vez , serei eu a arriscar uma hipotética resposta: o indivíduo poderá desenvolver ou sofrer de uma marcada ansiedade antecipatória, a qual poderá acabar por produzir exactamente aquilo que mais teme. Ou seja, noutras palavras acabará, através dos seus comportamentos, condicionados por este estado de ansiedade antecipatória, por realizar a sua própria profecia, designada por auto-realização de profecias.
Diz um ancestral ditado popular que “O desejo é o pai do pensamento” que se poderá extrapolar acrescentando que “o medo é a mãe do sucesso”.
Ironicamente, se por um lado o medo leva a que o que mais tememos aconteça, uma intenção forçada torna impossível a realização do que desejamos a toda a força. Trata-se de uma intenção/desejo excessivo (expectativa sobrelevada) ou “hiperintenção” que condiciona o resultado ou desempenho. Por outro lado, uma atenção excessiva do indivíduo, fixando ou dirigindo toda a sua atenção num dado objecto daquela situação, dito de outro modo, uma “hiperreflexão” terá como resultado o insucesso (Frankl, 2003, pág. 169).
Quando mantemos uma hiperintenção na confirmação do que desejamos atingir ou ser, associada a uma hiperreflexão centrada num dado objecto alvo da mesma intenção, obviamente que nos tornamos incapacitados da concretização do objectivo a que aspiramos gerada pela ansiedade antecipatória assente nestes dois factores.
Parece que chegámos a uma séria encruzilhada e a luz da lua não parece ser suficiente para encontrar o caminho mais adequado… mas talvez não seja assim, quiçá se a luz do luar fosse mais intensa, não seria excessiva? Não seria também uma “hiper-luz” que ofusca mais do que revela? Sem uma hiperintenção em desvendar a solução e, sem uma hiperreflexão num caminho específico, continuamos a nossa discussão, tendo apenas os sons da natureza por companhia.
Talvez o caminho não seja nenhum dos que encontramos na encruzilhada, talvez percorrendo-o de volta consigamos ir dar origem a um outro caminho, que nos tenha passado despercebido na nossa ânsia de o percorrer, vejamos o que podemos fazer com estas duas forças.
As duas forças que nele descobrimos poder-se-ão transformar, isto é, poderemos torná-las “de-reflexivas” na medida em que recodificamos focalizando a atenção para o objecto apropriado e assim, obter o resultado desejado da nossa intenção (Frankl, 2003, pág. 170), tal como na nossa metáfora da encruzilhada, ao invertermos o percurso descobrimos que sendo o mesmo leva-nos a um outro, desta vez o da solução mais adequada. O luar é na medida certa…

Nunca nos ocorreu substituir o nosso maior temor por um desejo paradoxal?!…
A hiperintenção é nociva ao que mais se deseja e o medo excessivo leva a que se realize o que mais tememos, nesta dualidade da ansiedade antecipatória surge a “intenção paradoxal”, o enorme desafio de concretizar exactamente o que mais tememos. Se um sintoma nos provocou um determinado “sentir/estar” (ansiedade antecipatória/medo) que nos causa sofrimento, este por sua vez produz outros sintomas que mais não fazem que reforçar o estado anterior num interminável ciclo vicioso que devemos romper.
Se tememos a insónia porque não, ao invés de tudo fazer para dormir, tentar não dormir de todo até que o sono venha?… Pode parecer pouco lógico e congruente, mas faz sentido. Não obstante, há que de-reflectir a nossa hiperintenção e hiperreflexão.
Duas novas forças a adquirir: algum desprendimento de si mesmo e sentido de humor para de vez em quando nos rirmos de nós próprios, desafiando o que mais tememos tratando-o com ironia, ridicularizando a situação, transcendendo-nos.
A mudança de orientação é fulcral e determinante, daí que tenhamos voltado atrás e encontrado o caminho, no sentido adequado e num novo significado, com uma intenção paradoxal talvez o sonho se torne mais perto de nós.
O sonho comanda a vida, mas não nos devemos tiranizar para o materializar…
Termina aqui a nossa noite de reflexão sob um luar irrepetível porque a lua não é sempre a mesma nem se mostra sempre igual e a vida está repleta de paradoxos e belas surpresas…
Obrigada a todos os que aceitaram o convite!…

Frankl, V. E. (2003). El hombre en busca de sentido. (22ª Edição). Barcelona: Herber.

~ por ammedeiros em Julho 17, 2006.

16 Respostas to “O que é a “A Intenção Paradoxal”?…”

  1. “Parece que chegámos a uma séria encruzilhada e a luz da lua não parece ser suficiente para encontrar o caminho mais adequado… mas talvez não seja assim, quiçá se a luz do luar fosse mais intensa, não seria excessiva? Não seria também uma “hiper-luz” que ofusca mais do que revela? Sem uma hiperintenção em desvendar a solução e, sem uma hiperreflexão num caminho específico, continuamos a nossa discussão, tendo apenas os sons da natureza por companhia.”

    Olha, um opinião,
    Detesto filhos da mãe hiper-metaforistas. Pq falam falam falam e não dizem nada. Falam de desvendar a solução com lanternas mas acabam por não dizer para que é que elas servem. Falam de caminhos mas não nos explicam como lermos as placas na vida real… enfim. Demasiado organicista. A metáfora é essencial nos processos preensivos humanos, mas para mim, que lido diariamente com esses processos, não há paciência para vê-los em textos escritos num tom supostamente e facialmente académico.
    Parece quase um mal social, o desejo de fazer tudo bonito, tudo fácil, tudo possível. A ideia de que o caminho não deixa marcas nos nossos corpos e mentes. Como aquela malta de 50 e tal anos fechadinha em casa que sai para tomar um café para voltar a correr para casa e depois diz que a idade não é impedimento para nada. A idade não, os trajectos passados com a idade, sem dúvida. Porém, esta necessidade de metaforizar o discurso, esta ideia de apresentar, tal como na prateleira do supermercado, futuros possíveis alternativos cheios de promessa de mudança levam a este tipo de discurso mastigadamente metafórico
    É uma opinão claro… tão metafórica como outra qualquer ; ))))))))))

    P.S.- Tu não gostas mesmo de ter comentários por estas bandas pois não? Com textos destes… ninguém pega ; ))))

  2. A Hiperintenção, de facto, condiciona e limita a acção. No entanto, temos que a valorizar, pois ela é fruto do que somos e vivemos. Aquilo que a minha atenção “selecciona” depois de escrutinar o todo é aquilo que sou.
    A luz da lua é um farol que no lusco fusco apazigua e revela, por entre as sombras, os trajectos que se nos apresentam. Aquele caminho pode não ser o ideal, mas percorrê-lo faz parte da viagem. Mesmo que adiante se apresente outro, mesmo que a viagem seja sofrida e deixe marcas(porque deixa sempre! à primeira vista poderão ser inperceptiveis mas estão lá…)- o percurso é algo que ninguem pode ensinar e muito menos dizer “como ler as placas”. Até porque o leio é aquilo que quero, que posso ou que devo ler naquele instante.
    Frankl tem razao – porque não em vez de evitar o que se teme, enfrentá-lo? porque não explorar a insónia e vivenciá-la como se fosse a primeira? como se fosse única? Gritar ao mundo que temos insónias?
    As lanternas fazem parte da descoberta, qual seria a graça de saber de antemão o que são? para que servem? o que alumiam?
    A descoberta deve ser sempre isso mesmo – DESCOBERTA!
    Facilitismos de querer que se diga tudo, se explique tudo.. Pergunto me se o autor do comentário anterior não desejará que lhe expliquem todo, tirando o prazer imateralizavel do caminho?
    Ter-se-á perdido no trajecto?
    De assim foi, lamento profundamente!
    Está a perder uma paisagem unica….
    O texto não é falaciosamente académico, mas mesmo que fosse as falácias porquanto instingam o pensamento são úteis…
    Presuponho que a escolha deste trecho tenha sido fruto de uma busca de conteudo, esperando fugir a opinões baratas – “de trazer por casa”, tão comuns quando se “acha” que se detem conhecimento sobre qualquer assunto, como por exemplo a arte…
    Quanto ao ser mastigadamente metaforico, suponho que entao que lhe tenha custado digerir as metaforas e que a hiperreflexão se esteja a apoderar dele…e desta forma, o insucesso de ver para além do que aqui está.

  3. Ainda bem que não deseja ter comentários só por ter!
    Agradeço que nos permita ter a capacidade de saber comentar. De nos dar a hipotese de escolher o que nos apetece comentar.
    Tal como constatou comento muito pouco, pois gosto de seleccionar o que comento. Não poderia comentar só para demonstrar que sou um ser pensante e que tenho mais que a 4ª classe.
    Isso só revela que considera os seus comentadores como capazes de discriminar os textos que pensam ser importantes e não os que para os outros seriam importantes. Não remete para nenhum espaço comum. Não restringe o pensamento!
    Obrigada! Se doutro modo fosse, não me encontraria aqui, não deliciaria com o que escreve e com o que selecciona. Pois, para controlarem o meu pensamento e opiniões já me bastam os meios de comunicação e o que os ditos intelectuais (que por ai populam e gastam oxigénio…Infelizmente?!) fazendo apreciações ditas cultas…
    Sussurando de uma forma carinhosa, pelo respeito que lhe guardo, despeço-me desejando que coloque mais posts academicos ou não, com ou sem metaforas, mas sempre com conteudo!

  4. Tás a ver, gaja,
    Os teus fãs estão pulantes de raiva ; ) podem não ter opinião sobre o texto mas sobre mim têm de certeza: sou um obstáculo entre eles e tu fazeres parte da vida sexual deles loooooooooooool looooooooooooooooooooooool looooooooooooooooooooooooool

  5. Peço desculpa mas nao quero me interprete mal. Ana, reconheço que depois de ter lido o texto do seu outro comentador, fiquei confuso. Mas como considero saber tão pouco (perante a vastidao de conhecimento e sabedoria que se nos apresenta) que pressupus ser a minha mente pequena demais para abarcar o que estava ali escrito ou o que se deveria ler nas entrelinhas…
    Apesar disso como em tudo na vida gosto de expressar o que me acorre ao pensamento, sem pretender ferir susceptibilidades. Mas parece-me que o fiz, invadi o “terreno de alguem”. Lamento, não era essa a minha intenção. Não sabia que ele era um obstaculo entre a sua vida e os desejos dos que querem fazer parte dela…
    Espero que a Ana não me tenha lido mal. Sem a desejar ofender, nunca poderia dizer ou insinuar algo semelhante ao que o seu comentador leu no meu texto. Se assim foi, perdoe-me!
    A minha experiência ensinou-me que com as mulheres respeito e delicadeza, mesmo quando somos invadidos por uma paixao que nos tolda a razao, devem ser sempre mantidas.
    Embora esteja algo fascinado consigo, como decerto depreendeu noutras circunstâncias, nunca seria capaz de expressar o meu desejo por si ou por outra mulher desta forma tão “básica”. Amar uma mulher para mim mais do tecnica ou conhecimentos, é um prazer…

    Perdoe-me novamente por ter vindo aqui não comentar o seu texto – mas esclarecer algo que nunca ponderei que pudesse ser lido no meu ridiculo comentario…
    Com toda admiração,
    Sussuro,
    William Atwood

  6. Querida Ana, sei que continuas a escrever apaixonadamente. Um passarinho contou-me… :))))
    Quis vir espreitar o teu blog, pois a primeira vez foi… intensa e complicada. Encontrei bem mais do que aquilo que esperava (como deves saber, outra vez o passarinho…).
    Hoje revolvi passar por aqui, só para ver sobre o que te tens debruçado… Gostei. :))))
    Deixo te um beijinho amigo,
    Miguel
    p.s. vou tentar vir comentar mais vezes, desde que não me assuste… lol

  7. Miguel

    Esse passarinho é…muito cúmplice! ;)
    Calculo que deves ter pensado um pouco antes de visitar o meu recanto, depois do choque que te provoquei com aquele meu escrito na primeira pessoa tão cru e duro, porém verídico… e no entanto, fazendo parte de mim, é algo que ajudou a que me tornasse em quem sou hoje e gosto do que sou. :)
    Todavia, em relação a ti, não queria que aquele texto tivesse produzido o que produziu, espero que ao teres entrado neste recanto, pelo cantar do passarinho, tenha sido um prazer e tenha dissipado o impacto daquele escrito.
    Por aqui, vou-me sendo o mais eclética possível dentro do que mais prazer me dá, e de vez em quando escrevo mais extensamente sobre os assuntos que me interessam e que poderão interessar, eventualmente, a alguns e a outros não, mas escrevo porque gosto sem grandes pretensões ou veleidades e sem falsas modéstias (o passarinho já te deve ter cantado-contado).
    Obrigada pela tua visita, obrigada a ambos!
    Vem quando quiseres, será sempre agradável rever-te.
    Um beijo amigo

    P.S. Comenta. Não posso prometer que não venhas a sofrer um novo susto, mas tentarei minimiza-lo com um aviso prévio…através de um voo… loooooooooooool

  8. Olá!
    É a primeira vez que aqui venho, ainda só li este post; vou ler os anteriores quando tiver mais tempo.
    Gostei do que li, fez-me reflectir e isso é importante.
    “O sonho comanda a vida, mas não nos devemos tiranizar para o materializar…”
    Sem dúvida, uma vida sem sonhos é dramática, mas viver sob a tirania de…é dramático também. Corremos o risco de nos passarem outros sonhos ao lado também.

    Ana, só posso dizer que fiquei fã e que tenciono voltar mais vezes.
    Um beijo.

  9. Andorinha

    Adorei a visita inesperada ao meu recanto!
    Volta sempre que desejares.
    Obrigada,
    Um beijo amigo.

  10. Todas os comentários são bem vindos, dentro dos limites do respeito e da libardade de cada um. Sem censura.
    Obrigada,
    Um beijo

  11. Aqui vim parar a este texto. Talvez o mais poético (ou metafórico utilizando a linguagem de comentadores anteriores) que havia lido na minha vida sobre a intenção paradoxal.

    Eu mesmo estou a tentar preparar um post no meu blog acerca da relação entre a busca incessante de Majnún por Laylí (a mística história de amor medio-oriental já algumas vezes citadas no meu “recanto”) e os conceito logoterapêutico de hiper-intenção (e talvez outros conceitos). Estou aberto a sugestões.

    Aos outros comentadores (que me pareceram incertos, embora não fossem) e a si (por cumprir a promessa) deixo um texto de Frankl: “la conciencia de cada cual, como todo lo humano, está sujeta a error; pero esto no excusa al hombre de su obligación de obedecerla: la existencia implica riesgo de error” (Frankl, V. E. (2001). Psicoterapia y existencialismo – Escritos selectos sobre la logoterapia. Barcelona: Editorial Herder.)

    Por fim, aconselho seriamente a leitura do seguinte livro, que nos ajuda a organizar o pensamento logoterapêutico: Freire, F. B. (2002). Acerca del hombre en Frankl. Barcelona: Editorial Herder.
    Depois desse, sugerirei outro(s)
    ;-)

    Nos vamos “vendo”.

  12. Simpático da sua parte, quando diz que o texto é poético ou metafórico, na verdade embora seja um facto que o recurso ao metaforismo se tenha banalizado, continuo convicta da sua eficácia para o entendimento e desenvolver uma imagem mental que simplifique o conceito e venha a servir de âncora na situações que se revelam característicamente análogas.

    Gostaria muito de poder ajudar, mas não creio que me seja possível, dado que o meu conhecimento sobre Majnún é parco…

    Agradeço a sugestão dos livros, na verdade tenho tido dificuldade em encontrá-los em português e até mesmo em espanhol por cá, as fnac’s estão muito limitadas e resta-me encomendá-los pela web ou comprá-los em Espanha…

    A citação é esplêndida e muito oportuna, obrigada!
    Pela visita e comentário.

  13. Não sei onde vive, mas no meu caso, optei por pegar em mim e ir um dia à vizinha Espanha e comprar tudo o que poderia.

    O Freire Benigno é um grande autor dentro da área, na medida em que conseguiu sintetizar muitos pensamentos e ideias que antes não me encaixavam bem. Creio que qualquer novato em logoterapia deveria descansar um pouco Frankl e ler o livro q sugeri.
    Há Elizabeth Lukas, a aluna “predilecta” de Frankl, como muitos a chama. Com obras traduzidas no México de completar e esclarecer muitas dúvidas.
    Há Fizzoti, italiano. Há a Xausa, brasileira.

    Há muitos textos. Herder (Espanha) e Vozes (Brasil) são os mais fáceis de conseguir.

    Já tem o meu email, se realmente quiser, pode-me escrever.
    Aconselho ir ao congresso em Madrir. Se gosta realmente, aí poderá ver se quer avançar ou não (além de ter aí algumas das estrelas: algumas!).

    Vemo-nos, no meu ou no seu, “recanto”.

  14. alguma coisa!!!

  15. não entendir o que e paradoxal

  16. Bem pra começar eu sou uma emo e não sei o que significa, pois eu não li isso
    bjs no coração e fique com Deus :)

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AMMedeiros

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