O Teu Percurso

Hoje vim aqui partilhar. E também falar-te de outra maneira. Escrever o que me atrevo apenas a dizer-te com as lágrimas contidas no olhar. Com as mãos quando te tocam quase sem te tocar para que sintas que estou ali e que te protejo sempre, meu Herói.
Ultrapassaste um internamento, uma infecção, as defesas na debilidade quase absoluta. Deixaste que um novo tubo entrasse numas das tuas veias. Deixaste comigo a teu lado, enquanto olhava no fundo do teus olhos profundos, enquanto perscrutavas nos meus a serenidade e a confiança que és tu que emanas sem te dar conta…
Aguentaste a crueldade de alguém. Há sempre um dito “profissional de saúde” disposto a agredir a dignidade de um qualquer doente, seja ou não um doente oncológico. Não importa. Tu é que és um menino de grande coragem e sabedoria.
Agora voltaste. Estás comigo. Vives cada momento. E vejo-te feliz sorver o tempo em actividades com os teus melhores amigos. Transbordas alegria em cada palavra. Enches a casa com a tua presença, o som da tua voz, as tuas expressões… Quase me parece uma miragem, que após 3 meses te possa sentir a viver alguns dias que têm o aroma dos dias em que a Leucemia não estava presente e nem suspeita dela pairava no espectro dos meus mais secretos medos.
Surpreendes-te quiçá, ou talvez não, que consiga presenciar todo o tipo de intervenções até mesmo as mais invasivas… Sabes, Herói? O que dói mais fundo é, por vezes, o que os meus olhos não vêem, mas sentem. O que dói mais fundo é a vida que te vejo precária, são os 16 anos que agora vives assim e, apesar de tudo com tanta determinação e uma vontade férrea de vencer e viver. Dói-me quando te observo e sob os teus olhos esteja aquela cor na pele tão escura, aquelas olheiras que não tinhas, que o teu rosto tenha uma lividez assustadora, que o teu corpo tenha mudado tanto e pressinta um sofrimento maior na integração da tua imagem, dói-me ver-te caminhar com aqueles passos descoordenados de velhinho que já tantos obstáculos viveu e caminhou… Dói-me quando te vejo ter dores e não suporto a tua dor e a minha, dói-me ver-te tremer de febre e não ser eu a suportar os teus tremores, dói-me quando baixas os estores da janela do quarto da vida e desligas a comunicação com todos porque estás débil…
Sabes, Herói? O que mais me dói é que possa existir um algo, seja o que fôr, esta entidade abstracta, que possa ser mais poderosa que a força de uma mãe. Mas existe. Não nos venceu, nem vai vencer, são os três anos de tratamento que me doem, sim doem muito, mas nós vamos ganhar. Tu vais ganhar mais vida, meu Herói.
O teu percurso pode ser difícil, mas tu és excepcional. Os Heróis vencem os maus, nunca se cansam. O teu percurso será sempre extraordinário e preenchido pelas cores da vida.
Adoro-te.
AMMedeiros









maravilhoso, este testemunho!!!
dois abraços cheios de beijos para a Ana e o Luis
O teu heroi também passa a ser meu herói!
Um lutador, que me dá um exemplo da força que o querer tem!
Bem hajas, menino, herói de sua terna mãe!
Abraço-vos terna e suavemente de alma para alma…
BIA
Ana e Luis vocês são também os meus herois .
Um grande abraço . Que bom que é termos amigos assim !
Teresa e Rui
Teresa e Rui
Este foi um texto de um tempo muito difícil… mas que me fez bem redigir na tentativa de apoiar o Herói e de exorcizar o meu sofrimento… Felizmente, os dias do agora são mais suaves e repletos de vida para o Herói!… Esperando não voltar àquela dor e, um dia, ouvir da boca do hematologista, as palavras de libertação daqui a cerca de 3 anos e meio. Até lá, VIDA, qualidade de vida para o Herói e todos os sonhos do mundo e Amigos como vós!!!
Um beijo infinito